
Na medida do possível, o leitor vai dar as cartas por estas bandas. Logo no primeiro dia, foram várias sugestões de temas. Vamos então com a de Jarson Dantas, que nos lança quase meio século no passado. E quem nos ajuda a recordar o Brasil bicampeão do mundo é um personagem fundamental nas campanhas de 1959 e 1963. Na tarde desta segunda, bati um papo por telefone com
Wlamir Marques, um dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos.
Daqui a exatos seis meses, no dia 16 de julho, Wlamir completa 70 anos. E o homem segue em plena atividade, como professor e comentarista da ESPN Brasil. Aos amigos do
Cesta de Ontem, ele fala sobre a comoção na final de 63 contra os Estados Unidos, a mão de ferro do técnico Kanela com os atletas e o episódio curioso que quase lhe rendeu o corte antes do Mundial de 59, quando pulou a janela do hotel em Volta Redonda e fugiu da concentração para ver o nascimento do filho.
- Como foi aquela festa no Maracanãzinho lotado, após a vitória sobre os americanos na final de 1963? - Olha, o ginásio estava cheio, gente pendurada por todo lado. Era uma época de ouro do esporte brasileiro: o basquete, o futebol, o boxe, com Éder Jofre. O país respirava as primeiras conquistas mundiais. E não eram conceitos de televisão. A final do basquete, por exemplo, só foi transmitida ao vivo para São Paulo, e mesmo assim com vários links ao longo da Via Dutra. Então, quando terminou o jogo, teve invasão de quadra, perdemos todos os nossos pertences
[risos].
- A idolatria era muito forte na época? - Nós éramos bastante conhecidos, mas o curioso é que éramos bem vistos pelo nome, não pela imagem. Os bicampões do mundo saíam na rua e... tudo bem. Só um ou outro sujeito reconhecia, porque o acompanhamento maior na época era pelo rádio e pelos jornais.
- A preparação era muito diferente do que se vê hoje? - Ah, sim! Para chegar a esse bicampeonato mundial, foram quatro ou cinco meses de preparação. Jogamos o Sul-Americano no Chile, o Pan em São Paulo, e depois fomos para o Rio, com a mesma equipe. Naquela época, só recebíamos uma ajuda de custo, o equivalente a uns R$ 2 mil.
- E por falar em preparação, você quase foi cortado pelo técnico Kanela antes do Mundial de 1959. Como foi essa história?- Era o dia 22 de dezembro e a seleção estava em Volta Redonda, no Rio. Eu queria ver meu filho nascer e o Kanela não deixava. Falei pro Amaury: "Vou embora". À noite, pulei a janela do hotel, peguei um ônibus e fui para Piracicaba. De manhã, o Kanela foi perguntar para o Amaury: "Cadê o alemãozinho?"
[risos]. Ele ficou muito bravo e ameaçou me cortar se eu não voltasse. No fim das contas acabou dando tudo certo e eu fui para o Mundial. Mas o Kanela era desse tipo mesmo.
- É verdade que o futebol quase te roubou do basquete?- Eu era um bom goleiro. O Aymoré Moreira
[ex-goleiro e técnico da seleção na Copa de 62] era fanático pra que eu ficasse no futebol. Na época em que treinei no Flamengo, em 1955, eu me dava muito bem com jogadores. O Zagallo, por exemplo. Eles me falavam muito da vida, da rotina, e acabaram me assustando
[risos]. Aí fui para o basquete.
- Melhor assim, né. Você e Amaury foram os maiores craques daquela geração. Ainda conversam sobre basquete hoje?- Eu falo com o Amaury de vez em quando. Ele fica o dia todo jogando golfe
[risos] e, quando quer se inteirar de algum fato do basquete, me liga. Outro dia, me ligou para dizer que estava arrumando as coisas e encontrou uma foto antiga, com vários jogadores. Ele disse: "Olha, parabéns! Desses aqui, só nós dois estamos vivos!"
[risos].